25 de agosto. Rua Rio de Janeiro, Belo Horizonte.
Esperava pelo ônibus, a rádio tocando nos fones de ouvido.
Sentei. Comecei a ouvir a conversa de duas mulheres, uma delas, de fala alta - mas não rude - e feliz.
- Não aguento cabresto, por isso não casei. Vê lá se vou aguentar igreja me ditando ordens e o que fazer. Não mesmo!
Uma gargalhada deliciosa veio depois, no contraste com a dureza e a impessoalidade de um centro de cidade.
Tirei o fone, ainda sem interagir, mas prestando atenção.
- Porque não é possível isso! Eu fui muito besta! Todo mês, eu numa pitimba danada, e me pedindo dinheiro, dinheiro, dinheiro. Pelo amor de Deus! E eu dava! Tirava duzentos reais! Pessoal lá chegando de carrão e eu só de busão! Neeeeem! E aquela falação: "Tem que dar, tem que dar". Quem pode, tudo bem. Mas e eu? Que não podia? Como fazer? E o negócio do inferno? Meu Deus do céu! Todo mundo vai para o inferno, gente? Não é possível isso! Não pode fazer nada, tudo é pecado, tudo Deus castiga. Meu Deus não pode ser assim!, disse ela, meio aflita e olhando em volta.
Interagi.
- E você ainda frequenta alguma igreja?
- Vou quando eu quero agora, no meu momento. Os irmãos falam que eu estou sumida, e estou mesmo, porque não aguento tanto julgamento. Mas ó (bem mineira), se for pra queimar, vou queimar, porque pecado todo mundo tem. Eu tento o meu melhor, mas sei que não sou perfeita.
- E seus filhos?, perguntei.
- Minha menina é a mais rígida com isso de igreja. Tá nessa ainda. Vamos ver até quando. Meu menino já foi da igreja, mas caiu na real, igual eu. Colocou dreads, aquele negócio na orelha, como é que é mesmo? - fazendo um gesto com as mãos.
- Alargador?
- Alargador, isso. Hoje diz que tá feliz desse jeito, sem falação na orelha dele de que pode isso e não pode assado. Tá namorando até, tá feliz, e isso pra mim é o que importa.
O ônibus chegou. Coincidentemente - ou não - pegamos o mesmo. Ela passou na roleta. Passei e quis continuar aquela conversa, me sentando ao lado dela.
-
Sabe qual o problema?, ela recomeça, como se estivesse esperando a prosa.
- Qual é?
- É que na igreja é todo mundo sentando no rabo de todo mundo. Não pode nada.
- É um falso moralismo, né?
- Isso! A palavra é essa! Nó, falso moralismo demais mesmo! Não tem condição. A gente tem é que se libertar, igual meu filho fez. Deixa eu te mostrar uma foto dele.
Ela pega o celular e mostra as fotos do filho, agora de alargador e dreads.
- E deixa eu te perguntar - disse eu - você que já frequentou mais essas igrejas. O que eles falam lá sobre homossexuais?
- Iiiiih! Pra eles, tudo é pecado! Vai todo mundo pro inferno, não pode aquilo e aquilo outro.
- E o que você acha?
- Eu? Pessoal tem que se amar, gente! Eu não me importo em nada! Tá feliz? Então tá bom! Onde está escrito que a gente tem que julgar e falar que vai pro inferno por ser homossexual, deficiente, negro. Aliás, conheci no ônibus duas meninas ótimas, elas moram juntas, se respeitam, tudo isso! Virei amiga delas, já fui lá, elas são ótimas! Esse fanatismo de tanta gente vai levar a gente pra onde?
Mais uma gargalhada deliciosa.
- Verdade... Você é que está certa mesmo. Que prazer te conhecer, viu? Desço no próximo ponto.
- O prazer foi meu, Deus acompanha.
Desci. E meu dia ficou melhor.